O Winnipeg Jets teve em 2017-18 sua grande temporada até agora, sua campanha foi a segunda melhor em geral na liga durante a temporada regular, também foi o segundo colocado na divisão Central. Sua participação na pós-temporada acabou sendo histórica também, pela primeira vez a franquia venceu uma série de playoffs, uma vitória em cinco jogos sobre o Minnesota Wild. O embalo do primeiro triunfo continuou na fase seguinte ao eliminar os Predators, parou na final de conferência ao cair para o Vegas Golden Knights.

Em 2018-19 repetiu o segundo lugar na divisão Central, dessa vez fazendo a décima melhor campanha geral da liga, no entanto caiu na primeira fase dos playoffs para o St. Louis Blues. Na temporada seguinte tinha a nona melhor campanha da conferência Oeste, quinto lugar na divisão e 20º lugar geral na NHL quando a temporada foi interrompida, entretanto acabou eliminado na primeira rodada dos playoffs.

Na atual temporada o Winnipeg Jets está em segundo lugar na divisão Norte atrás de Toronto Maple Leafs e disputando a segunda colocação com o Edmonton Oilers.

O motor dos Jets

Mark Scheifele chegou a National Hockey League definitivamente em 2013-14, não teve números tão expressivos em suas três primeiras temporadas na liga, ao mesmo tempo em que sua evolução como jogador ficou evidente. A partir de 2016-17, no entanto, Scheifele começou a produzir e chamar cada vez mais atenção, desde então não ficou abaixo da média de um ponto por jogo. Em 2018-19 ele chegou a disputar todas as partidas na temporada regular e terminou com um total de 84 pontos, esse até agora é o seu máximo na liga. Atualmente Scheifele somou 45 pontos em 39 jogos disputados e figura entre os maiores pontuadores da NHL.

Em pós-temporadas, Scheifele teve boa produção em 2017-18 terminando com 20 pontos em 17 partidas disputadas, em 2018-19 somou cinco pontos em seis jogos, já em 2019-20 jogou em apenas uma partida e passou em branco.

Mark Scheifele comemora gol pelo Winnipeg Jets
Mark Scheifele comemora gol pelo Winnipeg Jets. Foto por John Woods/CP

Quando você observa e cruza os números mais básicos tanto dos Jets quanto de Scheifele fica aparente a existência de uma relação causal ente eles. Podem existir muitos motivos para isso acontecer, no entanto a coincidência é muito grande e é nela que vamos focar aqui. Será que poderíamos considerar, sem trocadilhos, Mark Scheifele o motor do Winnipeg Jets? Aparentemente sim, contudo é necessário avaliar mais fatores para chegar a uma conclusão.

Então com uma rápida e superficial análise no mundo das estatísticas avançadas você tem maiores provas de que Mark Scheifele é realmente um bom jogador, em toda sua carreira ele tem números acima de 50% da posse do disco enquanto está no gelo em situações de cinco contra cinco, o que é o desempenho ideal tecnicamente falando. Observando nas métricas as chances criadas pelos Jets com Scheifele no gelo, vemos que elas ajudam a explicar o desempenho dele em cada uma das temporadas. Por último então conseguimos ver que Scheifele desde 2015-16 está sempre entre os três maiores contribuintes em pontos de Winnipeg, exceto em 2017-18 em que ele ficou 22 jogos fora.

Winnipeg não tem um elenco com muitos jogadores brilhantes. Scheifele é um dos principais pontuadores da liga, Blake Wheeler se destaca da média do elenco, Connor Hellebuyck se tornou um dos melhores goleiros da NHL nas últimas temporadas e Josh Morrissey tem provado que pode ser o defensor número um em uma franquia na maior liga de hóquei do mundo. Outros como Kyle Connor e Nikolaj Ehlers são boas peças em um elenco competitivo, entretanto não são aqueles jogadores que vêm à cabeça tão rápido quando pensamos em bons jogadores atuando na NHL. E mesmo assim o elenco é forte e competitivo o suficiente para figurar entre os melhores times da liga há quatro temporadas, é um grupo que produz consistentemente e por tal motivo tem se mantido competitivo.

Tem um fator nessa equipe que não é medido por números, ao menos não existe ainda método para medi-lo, que é o quanto Mark Scheifele transforma o Winnipeg Jets de um bom time para um que luta por mais. Assim retornamos ao ponto inicial, quando Scheifele está bem e saudável os Jets são competitivos, quando ele vai mal o time perde rendimento como um todo, a mera presença dele ou não passou a pesar nas atuações dos Jets. Existem alguns jogadores na história do hóquei que tem esse poder, personalidades que inflamam e mudam o humor completamente de todos os jogadores no vestiário. Alguns dos grandes do esporte como Jean Beliveau e Mark Messier tinham essa raríssima habilidade.

Importância fora do gelo

Scheifele é um dos capitães alternativos dos Jets e conhecido por sua liderança no vestiário, uma simples verificação em qualquer motor de pesquisas na internet usando a simples expressão “Mark Scheifele Leadershipfaz você encontrar artigos e mais artigos com depoimentos de jogadores e membros da comissão técnica sobre o quanto o papel dele fora do gelo é fundamental. Esse é um dos papéis que muitas vezes fica em segundo plano e é facilmente ignorado mesmo fazendo muita diferença em trajetórias de sucesso nos esportes coletivos em geral. Um líder de vestiário não é apenas a pessoa que consegue despertar o melhor como também é muitas vezes um conciliador de egos, quantas vezes grandes elencos passaram sem conquistas por conta de conflitos entre jogadores e/ou comissão técnica? Muitas. Por isso é sempre muito importante ter essas figuras que conseguem lidar com os aspectos capazes de elevar ou destruir a unidade do elenco e que são externos ao jogo literalmente falando.

Tivemos a oportunidade de ver os Jets sem Scheifele nos playoffs em 2020, nos primeiros minutos do primeiro jogo contra o Calgary Flames pelo Qualifying Round foi atingido em uma colisão que lesionou seu tendão de Aquiles. Winnipeg não rendeu sem seu principal jogador, foram três vitórias fáceis de Calgary contra um único triunfo apertado dos Jets. Os Jets tiveram dificuldades para criar as jogadas e também manter o foco no jogo, ou seja, aspectos técnicos e psicológicos foram afetados pela lesão e saída de Scheifele da bolha que a NHL criou para a pós-temporada. Quando a própria presença de alguém é tão necessária para o bom funcionamento de uma equipe e essa pessoa não pode estar presente, a tendência é justamente de que se perca a sintonia responsável pelo melhor funcionamento.

Quando se soma a liderança técnica com o papel de ser um dos líderes do elenco o resultado é uma figura que passa a ser inestimável para um time. Liderando os Jets na temporada atual como pontuador, ele propulsiona uma equipe muito competitiva e que aspira a objetivos grandes mais uma vez, Scheifele é o líder de Winnipeg. Então respondendo a pergunta feita anteriormente, sim, ele é o motor dos Jets. Scheifele é quem faz o time funcionar da melhor e mais ideal maneira possível, com ele presente e em boa forma temos a máquina trabalhando em seu máximo.

Mark Scheifele no gelo
Mark Scheifele no gelo. Foto por Jonathan Kozub/NHLI via Getty Images

Agrupamentos de seres humanos costumam funcionar melhor quando existe alguém para dar o exemplo e liderar, equipes logicamente fazem parte dessa categoria e tendo um atleta que serve como modelo sempre levanta a moral do grupo. Não é apenas sobre dar o seu melhor, mas também tirar o melhor de seus companheiros de time e é isso que os grandes capitães, ou capitães alternativos como o Scheifele, fazem. Com 28 anos de idade e muito pela frente, pode ser que ele leve o time a tão sonhada Stanley Cup ainda, mas para chegar lá Scheifele e os Jets precisarão superar vários outros fatores externos e internos.

Fica cada vez mais claro que a presença de Scheifele não é apenas decisiva tecnicamente como psicologicamente para o elenco de Winnipeg. Esse elenco já foi até uma final de conferência, certamente anseia por algo maior, e quando se tem alguém como Mark Scheifele é possível não apenas sonhar como vislumbrar realisticamente. Talvez não em 2021, mas existe uma possibilidade de montar um time campeão num futuro em médio prazo a partir de Scheifele e a base atual.

Apenas com um bom motor, o jato pode decolar e voar seguramente, mas não é a única peça importante. Scheifele pode ser bem o impulsor, no entanto os Jets precisam mais do que ele para conseguir chegar à copa mais cobiçada do hóquei norte americano. E é claro que já tendo a peça mais importante, o resto é menos difícil.


Este texto é o primeiro de uma série de artigos que serão publicados por colaboradores na NHL Brasil. Você pode encontrar o Thiago Farias no Twitter no Fanático por Hóquei.

Foto por: Fred Greenslade/CP