Reprodução/Twitter: @Stjohns28

Os objetivos de Stephen Johns em sua jornada na #MentalMiles

Durante o mês de setembro vamos trazer algumas pautas relacionadas à saúde mental dos atletas da NHL. Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e prevenção ao suicídio. Se você está tendo problemas relacionados à sua saúde mental ou conhece alguém que está passando por dificuldades, procure por ajuda! Uma das opções são as ligações gratuitas para o Centro de Valorização da Vida (CVV) no número 188. As ligações são sigilosas e os voluntários recebem treinamento adequado para conversar e dar apoio emocional.

Vamos falar um pouco sobre os objetivos de Stephen Johns em sua jornada na #MentalMiles.

“Ainda na temporada de 2021″, Stephen Johns, defensor do Dallas Stars, acabou ficando de fora da NHL, e foi naquele momento que ele soube que sua carreira havia acabado. No auge dos seus 29 anos Johns não planejava se aposentar do hóquei, mas ele simplesmente não conseguia encontrar outra saída.

Vinte e dois meses foi o tempo em que Johns precisou ficar afastado lidando com síndrome pós-concussão. Embora ele tenha sido liberado para voltar para o gelo, ele nunca se sentiu completamente recuperado. Johns ainda precisa lidar com uma dor de cabeça persistente em todos os momentos da sua vida. Durante o último jogo da NHL em que ele jogou, o jogo 1 de uma série de playoffs da primeira rodada contra o Calgary Flames na bolha da pós-temporada de 2020, ele olhou para o relógio e viu que estava no segundo período, mas não se lembrou de um único turno desde o início do jogo. E foi naquele momento que ele soube que estava tudo acabado. Stephen Johns ficou no Dallas na temporada passada, ficando de fora no último ano de seu contrato, e voltou para sua casa de infância na Pensilvânia no início de abril.

“Eu meio que sentei na minha casa, e só bebi, me auto-isolei e realmente não fiz nada”, disse ele, “eu não estava jogando golfe, eu não estava saindo com meus amigos, comecei a ter pensamentos suicidas, estava apenas em um lugar muito, muito sombrio.”

Um dia, ele se deparou com o videoclipe de “Live Before I Die” de Mike Posner e Naughty Boy no Youtube. O vídeo detalha a viagem de seis meses de Posner pela América.

“Por que?” É uma das palavras que aparece no vídeo. “Eu percorri um longo caminho para se tornar alguém no qual estou realmente orgulhoso.”E acabou sendo a fagulha que Johns precisava para acender uma fogueira de mudanças. Ele chamou um amigo, pegou seus rollers e decidiu viajar pelo país e foi quando #MentalMiles surgiu, termo que Johns cunhou para espalhar sua mensagem sobre a importância da saúde mental. Ele não fazia ideia da viagem que seria.

Os objetivos de Stephen Johns em sua jornada na #MentalMiles
Reprodução/Twitter: @StJohns28/Toates1

“É definitivamente diferente do estereótipo que as pessoas estão acostumadas a ver dos jogadores de hóquei”

O antigo jogador do Dallas Star, encerrou sua jornada na #MentalMiles em Oregon esta semana [em julho de 2021], depois de mais de quatro mil quilômetros percorridos, e centenas de novas conexões feitas, talvez milhares. Apesar de não ser um dos objetivos da jornada de Stephen Johns na #MentalMiles, suas redes sociais foram inundadas com recados de todo o mundo, e cada dia ele é marcado em dezenas de vídeos de pessoas compartilhando seu próprio #MentalMiles. Ele postou pela primeira vez sobre a viagem no Instagram em 13 de junho. 

“Eu meio que não percebi que eu estava anunciando minha aposentadoria naquele post, mas eu fiz,” Johns afirmou. “Mas eu não achei que iria ter o efeito que teve, mesmo antes de começarmos a viagem, era como, uau, isso vai ser algo louco, pode realmente se tornar algo enorme.”

O amigo que viajou junto com Johns é Jeff Toates, que trabalhou para o Dallas Stars como cinegrafista. Esta temporada também foi a última de Toates com a organização, quando ele se mudou para um novo emprego. 

“Foi a melhor mensagem que já recebi, porque foi do nada, foi uma tarde de quinta-feira e ele disse: Acho que vou andar de rollers pela América.” disse Toates. “Foi isso. Essa foi a mensagem, eu fiquei tipo, estou dentro.”

Dois dias depois, Toates reservou um voo para Pittsburgh. Eles partiram cerca de uma semana depois. Toates filmou a jornada para um documentário que os dois estão procurando produzir, e ele sabe que a ‘vulnerabilidade bruta’ de Stephen Johns tinha potencial para um impacto único e com possibilidade de ser ainda maior que o seu trabalho no hóquei.

 

“Comparado com o que a norma da liga é, isso está quebrando algumas expectativas e padrões de disponibilidade de mídia típica”, afirma Toates. “Eu não tenho pensado muito em Stephen no contexto de ser um jogador de hóquei, mas a maneira como ele se abriu, como contou sua história, é definitivamente diferente do estereótipo que as pessoas estão acostumadas a ver dos jogadores de hóquei.”

O Johns e o Toates tinham um objetivo para a #MentalMiles, e foi só isso. Durante os primeiros dias, eles acordavam às 7 ou 8 da manhã, e Johns ficava por três ou quatro horas com Toates atrás de um carro.

“Então eu entrava no carro, encontrava estradas muito boas, cortava mais três ou quatro horas, montava acampamento, tomava umas cervejas, falava sobre a vida, depois ia para a cama,” explicou Johns. “Durante os primeiros dias, a mordida do laço [irritação na parte da frente do tornozelo] foi algo difícil de lidar, além da linha do boné que se formou pela exposição ao sol que era ainda mais profunda. Fora isso, Johns disse que se sente muito bem, especialmente considerando que ele não tinha colocado patins desde seu último jogo na NHL. Além disso, ele também não tinha suado desde então.”

Johns e Toates tiveram a oportunidade de fazer novas amizades e reacenderam as antigas. Em Chicago, Johns conheceu um criador de vídeos de 21 anos, Jack-a-Trades, que viaja de ônibus por todo o país perseguindo experiências.

“Ele foi uma das únicas pessoas que me disse, energia segue boa energia”, disse Stephen Johns. “Ele viu o que estávamos fazendo, perguntou se ele poderia se juntar e dividir alguns quilômetros com a gente, e basicamente dirigiu de Washington D.C. para Chicago em um dia só para patinar conosco.” 

Em Idaho, se encontraram com Bobby Ryan, que em 2020 ganhou o Masterton Trophy da NHL depois de compartilhar publicamente sua experiência com o abuso de álcool. Eles ficaram nos mais diversos tipos de hospedagens, desde hotéis de cinco estrelas em Chicago para a casa de um ex-companheiro de equipe Joe Pavelski em Wisconsin e claro Airbnb e acampamentos.

“A verdade é que eu tenho pensado em tudo, não apenas na dor” 

“Em Yellowstone, montamos acampamento e ficamos em um hotel”, disse Johns rindo.
“Mas esse é o ponto sobre quantas pessoas aleatórias conhecemos nessas cidades e as conexões que fizemos”, acrescentou Toates. “Conseguimos nosso hotel naquela noite com alguém que conhecemos no bar na noite anterior, que adorou a nossa história. Conversamos por um tempo, ouvimos a história deles e eles nos ajudaram.

Johns passou pelas mais diversas reações, durante sua  desde olhares tortos à pessoas que se sentiram confortadas pela sua história, porque mostra que não estamos sozinhos há muitas pessoas neste mundo  que estão lutando. Apenas seis horas após a viagem em Ohio, eles estavam saindo de um posto de gasolina quando ouviram alguém gritar: “Stephen!”

“Eu patinei até esse garoto e ele me perguntou: ‘Você é Stephen Johns?’ e eu disse ‘Sim'”, Johns lembrou. “E ele disse, ‘Eu só queria que você soubesse, eu estou tendo uma manhã difícil e eu estava no Instagram e vi um dos seus posts. Eu não tenho ideia de quem você é, mas eu só queria dizer que é incrível o que você está fazendo, e sua história melhorou o meu humor completamente.'”

Johns foi uma escolha de segunda rodada dos Blackhawks em 2010, e foi negociado com Dallas como parte do acordo de Patrick Sharp em 2015. Ele jogou 167 jogos da NHL ao longo de quatro temporadas, o que o levou a acreditar: “Eu sou mais famoso por ser um cara andando de rollers do que jogando na NHL.” 

Quando Johns está na estrada, seu primeiro pensamento é: “M****, meus pés realmente doem.” “A verdade é que eu tenho pensando em tudo, não apenas na dor”, disse ele. “Eu tive alguns momentos loucos, que alteram a vida sobre os rollers. Lágrimas de alegria. Dominado com emoções, mas é tão diferente porque são emoções boas, quer dizer, eu estive preso, realmente preso a emoções ruins por muito tempo.”

Por um tempo, Johns estava com raiva do hóquei, e até de si mesmo, por não ser capaz de voltar ao gelo.

“Depois da concussão fui ao médico da minha antiga equipe e conversei com ele”, disse Johns. “Ele disse que minhas dores de cabeça eram de ansiedade e depressão, e eu deveria voltar a viver minha vida e tomar cervejas com meus amigos. E então ele simplesmente me mandou embora, isso foi depois de seis horas de exames. Eu queria fazer um check-up geral, ver como eu estava evoluindo, e foi isso que ele me disse. E o que eu fiz? Eu ouvi os médicos. E não fiz nada de diferente, nada para tentar ficar saudável, porque no fim os médicos me disseram que eu iria melhorar, era apenas questão de tempo.”

Stephen Johns foi direto do consultório médico para um cassino tomar uma cerveja.

“Eu perdi cerca de US$500 em 10 minutos,” ele disse. “Eu estava pensando como, ‘Eu não sei se é isso, mas aqui vamos nós.'”

Quando Johns apareceu para os treinos antes da temporada de 2021, ele disse que fisicamente não podia fazer nada. Então os meses começaram a voar, e as ondas de ansiedade e depressão pioraram e pioraram.

“Já estive em 15 neurologistas”, disse ele. “Já estive em clínicas do cérebro, recebi pequenas cirurgias onde o sangue é bombeado para o meu canal espinal. Já passei por tudo isso. Tentei todos os antidepressivos possíveis, tentei de tudo. Tudo piorou. Isso só me assombra, passei quatro, cinco meses em que sentia como se eu devesse estar ficando melhor. Afinal, eu estava ouvindo meu médico, e eu passei por um verão da melhor forma que pude e fazendo alguns exercícios. Acho que no fim, a melhor coisa para mim teria sido ver um neurologista que realmente se preocupasse comigo.”

Apesar disso, Johns não olha para trás em sua carreira de hóquei amargamente. Na verdade, é o oposto. “Os melhores momentos na minha carreira de hóquei foram em times relativamente pequenos, e eu acho que o sistema de ligas menores no hóquei é tão divertido e tão único”, disse Johns. “Eu joguei em uma grande cidade em Austin, e também em uma grande cidade em Rockford [Illinois]. As pessoas não falam muito bem de Rockford, mas eu tinha os melhores companheiros de equipe e os fãs eram extremamente apaixonados. Eu amei tanto o jogo”

Durante os playoffs de 2021, Johns disse que ele está assistindo a jogos apenas quando seus amigos estão jogando, e isso é tudo.

“É difícil estar na minha situação,” Johns disse. “Toda a questão da Encefalopatia Traumática Crónica (ETC), não é sequer reconhecida em nossa liga. Isso faz com que seja muito difícil assistir hóquei agora. Eu estou totalmente ciente que eu vou ter [ETC] em algum momento, se eu já não tenho. A demência e o Alzheimer são profundos na minha família. Quase todos os neurologistas com quem falei dizem que estou no caminho certo para isso, e no fim, saber disso também é desgastante.” 

Perguntado o que ele espera que as pessoas sua jornada na #MentalMiles, Johns disse: “A resposta óbvia é a importância de falar.” “Lesões na cabeça são muito importantes para se falar principalmente o processo de recuperação, não acelerar a recuperação das crianças para que possam voltar a jogar também, especialmente as crianças”, disse Johns. “Como um adulto, você pode tomar suas próprias decisões, mas como uma criança você não pode. Essa é a parte assustadora sobre isso. Nem consigo dizer quantas vezes na minha carreira joguei com dor de cabeça, porque era só uma dor de cabeça. É uma lesão que pode levar a uma doença, e uma doença que pode levá-lo a tantos caminhos diferentes da vida que você não pode imaginar. Nunca entendi a ansiedade ou a depressão porque nunca a tive. Pensei que era normal se perdêssemos um ente querido, ou terminássemos com alguém, as coisas normais. Eu realmente não entendia o quão profundo isso poderia ser, e como é difícil sair daquele buraco.”

Enquanto ele terminava sua viagem, ele estava descobrindo como manter o ânimo na  #MentalMiles. 

“Eu tenho sorte porque eu tenho os meios para ser capaz de fazer esta viagem e não me preocupar”, disse Johns. “Há muitas pessoas que trabalham das nove às cinco e só têm os fins-de-semana para fazer alguma coisa. Então eu estou tentando ajudar as pessoas de alguma maneira.”

Johns e Toates anunciaram uma parceria com a Dallas Stars Foundation e a Mental Health America. Eles estão encorajando as pessoas a fazer doações para cada Mental Mile que alguém percorre, e Johns vai doar para cada quilômetro que ele tenha percorrido na viagem.

“Todo o meu objetivo com a #MentalMiles é inspirar pessoas”, disse Johns. “Espero que as pessoas vejam o nosso documentário e possam tirar algo positivo dele. Ainda que eu só consiga salvar uma única pessoa, é o suficiente, não me interessa o que as pessoas pensam de mim, se acham que sou estúpido por fazer isto ou imprudente, porque isso, definitivamente, não é mais sobre mim, é muito maior, e isso, sim, é incrível.” 

Este texto, de julho de 2021, foi traduzido e adaptado. Para ler o original acesse o link.

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