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Saroya Tinker: a importância de usar sua voz pela mudança

Esse texto faz parte do Especial Mês da Mulher, onde iremos trazer informações sobre jogadoras que fizeram história no mundo do hockey, as pioneiras do esporte, sobre ligas femininas e muitas outras curiosidades e histórias incríveis de mulheres que fazem parte da comunidade. Ao longo de todo o mês de março, estaremos trazendo conteúdos no Instagram, no Twitter e aqui, no nosso site!

Hoje vamos falar um pouco sobre Saroya Tinker, defensora do Metropolitan Riveters da NWHL, a Liga Feminina de Hockey.


Saroya Tinker usa sua voz para mudar o mundo no gelo e fora dele.

A defensora canadense de 23 anos joga atualmente no Metropolitan Riveters, da NWHL, por quem foi selecionada na quarta escolha geral do draft de 2020 da Liga. Multiesportista, Saroya jogou badminton, basquete, curling, lacrosse, futebol, atletismo e até ultimate frisbee durante seu ensino médio, além de jogar hóquei desde os seis anos. Foi como aluna do high school que ela teve sua primeira oportunidade na seleção sub-18 do Canadá.

Em nível universitário, ela jogou pelo Yale Bulldogs. Lá, ela diz ter encontrado sua voz apenas em seu último ano, quando também se sentiu mais a vontade no gelo. Saroya teve uma pontuação de 32 pontos em 122 jogos disputados em sua carreira universitária.

 

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Fora dos rinques Saroya também se destaca, usando sua voz para combater o racismo e injustiças sociais. Parceira do Black Girl Hockey Club, a jogadora faz o que estiver ao seu alcance para ajudar meninas que virão depois e que passaram pelas mesmas situações que ela.

A equipe do NHL Brasil conseguiu entrar em contanto com Saroya para o nosso Especial do Mês da Mulher, e a entrevista pode ser vista em nosso IGTV ou lida na íntegra a seguir.

Ana Gabriela Ilha Kalil: Bem, nós temos algumas perguntas, e a primeira é, você pode nos dizer sobre sua experiência com o hockey?

Saroya Tinker: Como eu entrei nesse meio?

Ana Gabriela: Sim.

Saroya Tinker: Então, eu sou do Canadá. Eu cresci em Oshawa, Ontário, e meu pai em Scarborough. E Scarborough é uma cidade baseada no hockey da Região Metropolitana de Toronto. Meu pai sempre gostou do esporte enquanto cresceu, jogou hóquei em patins (roller hockey), hóquei no gelo e qualquer coisa que ele pudesse inventar. Mas o meu pai sofreu bastante racismo no esporte e nunca pode jogar em um nível mais alto. Mas por conta disso, ele quis botar seus filhos no esporte e meio que para provar às pessoas que elas estavam erradas. Então, com isso, eu comecei a jogar hóquei por volta dos seis anos, provavelmente comecei a patinar com dois anos e meio, três anos. Por isso, eu sempre quis continuar a jogar e quis provar que conseguiria para as pessoas 

Ana Gabriela: Que legal. E como foi a bolha da NWHL, e quais os principais desafios que você teve além da situação do COVID?

Saroya: Sim, eu acho que a bolha deu certo pelo o que tivemos e o que nos foi oferecido. Eu acho que fizemos um ótimo trabalho em termos de publicidade e parcerias. Mas estávamos no hotel 24/7. Se não estávamos no hotel, estávamos no rinque de gelo. Então, ou você estava sozinho no seu quarto ou estava com a equipe na arena, mas obviamente ainda fazendo distância social. 

 

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Quer dizer, nós ficávamos sempre sozinhas. Então eu ficava muito tempo no quarto apenas lendo. Eu fiz muita ioga, coisas desse tipo, para ficar preparada e pronta. Mas, sim, muito tempo sozinha e muito foco no jogo. Então eu acho que no geral foi uma experiência boa que infelizmente acabou muito cedo. Mas ao mesmo tempo, acho que a Liga fez um ótimo trabalho pelo o que eles nos proveram, o que eles tinham para nós durante todo o torneio.

Érica Barros: A próxima questão é: qual foi o momento na sua vida em que você percebeu que realmente queria se tornar uma jogadora de hóquei? 

Saroya: Nossa, acho que foi durante o ensino médio. Eu realmente tinha que focar em um esporte. Eu jogava basquetebol e futebol competitivamente, e eu tive de escolher entre os três. Mas no meu 11° ano no ensino médio, eu recebi um convite da Seleção Canadense para treinar com a equipe sub-18. E a partir disso, eu comecei a focar somente no hóquei. 

 

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Eu queria estar na seleção, e ainda jogar basquete e futebol e tudo o que eu jogava no ensino médio, mas ao mesmo tempo eu realmente tive de fazer um esforço para realmente focar no hóquei e enfim entrar na seleção. E, felizmente, fiz parte do time e ganhei a medalha de prata. Mas sim, acho que receber o convite da Seleção Canadense me fez perceber que o hóquei seria o que eu queria.

Érica: E como foi a experiência jogando hóquei na universidade de Yale e qual a principal diferença entre jogar na NCAA e na NWHL?

Saroya: Eu acho que a minha experiência em Yale não foi a melhor em termos de atmosfera em equipe. Eu sentia que hóquei era mais um trabalho quando estava em Yale. Eu chegava no rinque com meus fones, fazia meu trabalho no gelo e ia embora, não tive muitas conexões com minhas colegas de equipe. Mas no geral, eu acho que no meu último ano nós pudemos ter uma equipe de treinamento nova e isso nos deu uma perspectiva de como o hóquei em Yale é. 

Então, passamos de um time que sempre ficava no oitavo ou nono lugar, que ia aos playoffs por poucos, para um time de quinto lugar na tabela. E isso foi só o primeiro ano com Mark Bolding treinando. Mas ele continua a fazer um trabalho ótimo lá. Portanto, em Yale, eu só achei a minha voz e fiquei confortável no gelo no meu último ano lá. Mas ao mesmo tempo, a experiência no campus é algo que não consigo descrever. 

 

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Acho que você tem que estar lá para ter a experiência, para conhecer todo mundo no campus, os rostos, os professores e todo mundo lá. Yale é um campus liberal incrível. E acredito que eles façam um trabalho maravilhoso de inclusão. Quer fosse me encontrar com um novo grupo no campus e aprender sobre o que eles estavam fazendo ou me encontrar com meus outros amigos de outras equipes, acho que a experiência de estar em Yale foi realmente incrível.

Tive que aprender muito, obviamente, em um curto período de tempo. E eu acho que a experiência fora do campus foi o que realmente me manteve ao longo de minha carreira no hóquei lá. 

Por fim, comparando com o jogo profissional, eu diria que a maior diferença é apenas a velocidade e a força das garotas no gelo. Claro que em uma seleção mais estreita,  somos capazes de atrair os melhores jogadores do mundo para realmente jogar na nossa liga. 

Então eu acho que o tamanho e a velocidade são realmente o principal, essa é a maior diferença, mas também apenas o nível de profissionalismo que as jogadoras se mantêm e como elas querem incluir suas companheiras de equipe e se manter em um alto padrão, mas também mantenha seus companheiras de equipe em um alto padrão. E, ao fazer isso, certificar de que todos se sintam incluídos e bem-vindos.

Nathália Juliana: Você poderia nos contar mais sobre a campanha Get Uncomfortable com o Black Girl Hockey Club? 

Saroya: O Black Girl Hockey Club, eu atualmente sou voluntária com eles. Estou especificamente no comitê de bolsas deles. Mas a campanha Get Uncomfortable (Fique Desconfortável) é realmente algo para outras equipes, outras ligas participarem e reconhecerem onde podem melhorar em ter conversas desconfortáveis com eles, com suas equipes e com seus funcionários. 

Acho que, para melhorar a diversidade e a inclusão, você deve ter conversas desconfortáveis e aprender com as pessoas ao seu redor e aprender como elas querem se sentir incluídas. E também, como não se sentem incluídas e como diminuir essas práticas à medida que avançamos. Mas a campanha Get Uncomfortable é essencialmente algo que as equipes podem assinar e se comprometerem a ter essas conversas desconfortáveis e fazer a diferença nas áreas de diversidade e inclusão.

Nathália: Não tenho certeza, mas acho que o único time que participou da campanha foi Seattle?

Saroya: Sim, acho que Seattle foi o primeiro time a fazer isso. Tenho certeza de que agora temos outros times se juntando também. Eu sei que algumas equipes OHL fizeram, eu conheço outras ligas que também fizeram. Então, quero dizer, quanto mais gente conseguirmos, melhor poderemos fazer. Portanto, estamos ansiosos para ter mais pessoas assinando isso.

Nathália: Sim. E ainda há um longo caminho para combater o racismo no hóquei e na sociedade. Como você acha que a NHL e a NWHL e muitas outras ligas deveriam lutar de forma mais ativa?

Saroya: Acho que o básico para  começar é tendo essas conversas desconfortáveis. Para saber a necessidade do que a Liga ou o seu time precisa, você tem que falar com seus jogadores não-brancos e ver onde eles acham que estão excluídos. E, nesse sentido, acho que cabe aos outros companheiros de equipe e à comissão técnica e aos jogadores garantir que seus companheiros se sintam incluídos. Então, algo sobre o qual tenho falado muito é o antirracismo. Portanto, não é suficiente apenas fechar os olhos e não reconhecer que algo está acontecendo bem na sua frente.

 

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Precisamos que nossos aliados e nossos companheiros de equipe e membros da equipe brancos chamem outras pessoas para educá-los, porque não é o trabalho de nós,  jogadores não-brancos. Enfim, é necessário o esforço de nossos colegas brancos para combater isso e ser essa força conosco.

Luíza Vidal: Como você disse, vocês não precisam ensinar ninguém. Vocês não precisam educar ninguém. E eu concordo totalmente com você. Fantástico. Vimos, acho que foi na semana passada, que você postou aquela carta aberta falando sobre sua história e como as coisas foram realmente difíceis e são realmente difíceis para você. O que o motivou a escrever isso e se abrir sobre sua história?

Saroya: Sim, acho que pelo que percebi é que quando as pessoas compartilham suas histórias, muitas pessoas ouvem e querem saber como você se sente e como você se sentiu ao longo de sua carreira. Especialmente como atletas, eu acho que as pessoas nos respeitam como atletas, mas também, ao mesmo tempo, você tem que lembrar que somos pessoas, mais do que apenas entretenimento de sexta-feira, sábado à noite. Portanto, acho que o Players’ Tribune faz um trabalho incrível de mostrar essas histórias e garantir que sejamos ouvidos. 

E para mim, acho que foi importante compartilhar minha história apenas para que as outras garotas negras mais jovens que estão onde eu já estive e que têm essas esperanças e sonhos como eu, possam se ver em uma posição de poder e se ver jogando profissionalmente no college e todas essas coisas. Portanto, acho que para mim compartilhar minha história é realmente ser esse modelo para as meninas que vêm depois de mim e deixá-las saber que mesmo que elas possam passar por esses casos de questões raciais ou por coisas igualmente complexas, que é possível faz isso. E possível passar por cima e chegar aqui. 

Luiza: Sim, com certeza. E eu acho que falo por todos nós quando digo que me arrepiei ao ler sua história, quase chorei. Foi realmente inspirador, mesmo sendo uma mulher branca. Acho que é tão importante que você compartilhe e você tem um passado tão bonito. E apenas uma pergunta fora de nossa lista, como você se sentiu por estar em uma liga profissional de hóquei, como no momento em que recebeu a notícia de que iria jogar para as Riveters? Como foi isso?

Saroya: Sim, eu acho que, na verdade, eu nem mesmo planejava jogar como profissional após minha carreira universitária. Mas meu treinador garantiu que eu teria pelo menos alguma experiência profissional, pois ele sabe que eu posso jogar nesse nível. Mas, ser escolhida em quarto lugar geral, eu definitivamente não estava esperando isso. Assim como uma defensora grande e forte, eu esperaria que eles levassem jogadoras mais habilidosas antes de mim, eu acho. Mas, ao mesmo tempo, era fantástico estar na bolha. Fomos tratadas como jogadoras profissionais, dadas as circunstâncias do COVID e tudo mais, eu acho que a liga fez um trabalho incrível. E acho que foi bom finalmente sentir que éramos bem-vindas dentro do hóquei como mulheres e foi bom poder ter aquele ambiente profissional, porque não é algo que tenhamos visto muito no hóquei profissional feminino. Então eu acho que isso foi super importante e eu definitivamente adorei ter essa experiência.

Luiza: Isso é muito legal. Para encerrar, queremos que você deixe uma mensagem para todas as jovens, para todas as mulheres que estão tentando entrar no hockey, que querem ser jogadoras, que querem ser jornalistas e querem estar dentro do negócio do hóquei, da comunidade do hóquei.

Saroya: Acho que minha mensagem é sempre a de ser você mesma. Eu acho que quando você é capaz de fazer isso, você é capaz de amar totalmente quem você é e ser capaz de compartilhar essa voz autêntica. Sempre penso que é importante que as meninas mantenham a cabeça erguida e também mantenham seus padrões mais elevados. Acho que precisamos nos colocar em elevados padrões como mulheres e avançar com isso e exigir a atenção e o respeito que merecemos dentro de nosso esporte e dentro de nossos negócios e seja ele qual for. Portanto, seja você mesma.

Luiza: Isso é fantástico. Eu amei.

Saroya: Sim. Obrigado, pessoal.

Ana Gabriela: OK, então. Obrigado. Muito obrigado pelo seu tempo.

Luiza: Muito obrigado, muito obrigado!

Nathalia: Sim, é uma honra!

Ana Gabriela: Foi tão especial para nós! Parabéns por sua carreira e tudo mais. Oh, meu Deus!

Saroya: Com certeza. Obrigado, pessoal. Avisem-me se precisarem de mais alguma coisa.

Ana Gabriela: OK, muito obrigada!


As redes sociais de Saroya Tinker pode ser encontradas aqui.

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