Em decisão histórica, a NHL se junta a outras ligas esportivas e adia jogos em solidariedade aos protestos nos Estados Unidos.

Após mais um caso de violência policial contra um negro nos Estados Unidos, com a polícia alvejando Jacob Blake nas costas, o país teve um novo levante de protestos contra o racismo, brutalidade policial e violência sistemática contra negros. Acompanhando as manifestações, jogadores do Milwaukee Bucks na NBA decidiram por boicotar seu jogo contra o Orlando Magic na quarta-feira (26). Isto foi apenas o início. O resto dos jogos foram adiados e houve até votação entre os jogadores sobre a continuidade da pós-temporada – que irá ocorrer. 

A atitude dos jogadores da NBA deu início a uma comoção entre atletas de quase todas as ligas. Todos os jogos do dia da WNBA e MLS foram adiados. Alguns times da MLB não entraram em campo. Na NFL, treinos de algumas equipes foram cancelados e outros tiveram protestos. O que a NHL fez?

Pressão e Momento de Reflexão

Perante os acontecimentos e protestos realizados, a NHL optou por manter os jogos. A solução foi realizar um “momento de reflexão” antes dos confrontos entre Tampa Bay Lightning e Boston Bruins, Dallas Stars e Colorado Avalanche. A decisão não foi bem recebida por fãs, jogadores e jornalistas. Chris Johnston, da Sportsnet, se disse desapontado e que haviam coisas mais importantes que jogos de hockey no momento; Akim Aliu parabenizou as declarações e ações de apoio de outras ligas e cobrou da NHL; Evander Kane disse que a falta de ação da NHL foi insultante.

Seu momento de reflexão durou pouco mais de 30 segundos. Nele a NHL disse que o racismo está em nossa sociedade há muito tempo e que a liga está comprometida a lutar contra injustiças raciais. A liga foi criticada e, após grande pressão, adiou os jogos de quinta-feira (26) e sexta-feira (27). A decisão partiu, inicialmente, dos jogadores e a NHL acatou. 

Adiamentos

A Aliança por Diversidade no Hockey (Hockey Diversity Alliance, ou HDA) formada por nove jogadores e ex-jogadores (Akim Aliu, Evander Kane, Trevor Daley, Anthony Duclair, Matt Dumba, Nazem Kadri, Wayne Simmonds, Chris Stewart e Joel Ward) fez um pedido formal à NHL pelo adiamento dos jogos de quinta-feira (27). Antes disso, de acordo com Chris Johnston, o técnico Barry Trotz disse que já havia uma discussão entre os jogadores do New York Islanders se haveria jogo ou não. A princípio, os times jogariam, mas a situação foi se alterando. Os jogadores saíram da bolha figurativa que a NHL (uma liga predominantemente branca) se encontra e tomaram atitude.

Durante o dia, vários relatos surgiram sobre o desejo dos jogadores de não jogar e sobre reuniões entre os atletas e membros do HDA – Pierre LeBrun confirmou que “mais de 100 jogadores entraram em contato com Evander Kane e Matt Dumba” para tratar sobre o assunto. Também segundo Chris Johnston, jogadores do Vancouver Canucks e Kevin Shattenkirk (TBL), junto com outros jogadores da Conferência Leste, entraram em contato com Ryan Reaves (VGK) para começar a discutir a questão sobre boicotar o jogo ou não. A partir de então, as discussões entre a NHLPA e a NHL surgiram. A NHL se pronunciou oficialmente sobre o adiamento dos jogos apenas às 19h (horário de Brasília), uma hora antes de quando ocorreria o primeiro jogo do dia.

Com um dia de atraso, a NHL entrou nos protestos.

E agora?

Em Edmonton, na bolha da Conferência Oeste, a coletiva de imprensa contou com diversos jogadores mas Ryan Reeves foi quem teve mais espaço. Ele se disse aliviado de perceber que os outros jogadores estão ao seu lado e ainda ressaltou como o movimento é importante pois “partiu de jogadores brancos de outros times querendo conversar”. “Eu entro em guerra contra esses caras e odeio eles no gelo, mas eu não poderia estar mais orgulhoso”, disse Reeves. A entrevista de Ryan Reeves enfatizou que este momento histórico da NHL partiu de jogadores e não da liga.

Na quarta-feira (26), Evander Kane disse em entrevista a David Amber que é ótimo ver declarações, tweets, stories e fotos no Instagram mas que “no fim do dia precisamos de ações reais e mudanças significativas”. Quando questionado sobre o que deseja ver a NHL fazendo, disse que gostaria de ver a liga reconhecendo o problema – até o momento dessa entrevista a NHL ainda não havia comentado sobre o caso de Jacob Blake. “É decepcionante,” disse ele, “como um jogador negro na liga, é ainda mais decepcionante”. Matt Dumba disse que quer ver ação depois que toda a conversa terminar.

Uma das ações que a NHL deve apoiar é a da Aliança pela Diversidade do Hockey, que em julho propôs que a liga assinasse um compromisso para lutar contra a desigualdade e por mais inclusão no hockey. Entre os pedidos estão: fundar programas de base para jovens negros e iniciativas de impacto em justiça social, educação anti-racista, contratação e promoção de pessoas negras, entre outros. A HDA espera que a liga assine o compromisso até o fim dos playoffs.

Vida após a bolha

Por fim, Ryan Reaves julga a demonstração de quinta-feira (27) como extremamente importante mas disse que parar esses dois dias durante os playoffs não irá resolver o problema. “Quando nós sairmos na bolha, nós precisamos chegar nessas comunidades,” ele disse, “nós precisamos começar trazendo mais jogadores negros, construindo rinques de gelo nessas comunidades”. Reeves apontou uma questão importante sobre o hockey, comentando sobre como não é um esporte barato de se praticar. Ele disse que é preciso “começar a levar equipamentos, construindo rinques, fazendo camps gratuitos com alguns jogadores para chegar nessas comunidades, conhecer os jovens e fazer com que eles gostem do jogo”. Ele julga esse ser um ótimo ponto de partida, “para mim, quando eu sair da bolha, é onde eu vou começar”.

A NHL retorna no sábado (29) e a liga não confirmou ainda como será o calendário.

Foto: reprodução/NHL

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