Manon Rhéaume: muito mais do que a NHL

Manon Rhéaume: muito mais do que a NHL

Esse texto faz parte do Especial Mês da Mulher, onde iremos trazer informações sobre jogadoras que fizeram história no mundo do hockey, as pioneiras do esporte, sobre ligas femininas e muitas outras curiosidades e histórias incríveis de mulheres que fazem parte da comunidade. Ao longo de todo o mês de março, estaremos trazendo conteúdos no Instagram, no Twitter e aqui, no nosso site!

Hoje vamos falar um pouco da Manon Rhéaume, a primeira e única mulher que já jogou na NHL.

Começo

Manon Rhéaume nasceu na cidade de Lac-Beauport, Quebec, no Canadá, filha de Nicole e Pierre Rhéaume. Com um fundo familiar atlético, Pierre era fã de hockey e montador de cavalos. Já a mãe, Nicole, era nadadora e esquiadora. Manon era a filha do meio, com um irmão mais velho, Martin, e um mais novo, Pascal – que, inclusive, viria a jogar na NHL depois.

Lac-Beauport era uma comunidade de esqui, contudo, não havia rinques de gelo. Por isso, Pierre decidiu construir o primeiro rinque da cidade, tornando-se o treinador, organizador de ligas e ensinando as crianças da cidade a patinarem.

Manon começou a patinar com três anos. Eventualmente, ela começou a participar dos jogos de hockey com seus irmãos, servindo como goleira. Porém ela só jogaria com o time da cidade, o Lac-Beauport, aos cinco anos. Pierre, como técnico, focava na habilidade de patinar dos jogadores e em seguida, em suas habilidades de com o puck.

Por não treinar partidas em si, a equipe de Lac-Beauport não tinha goleiro. Foi por isso que Manon, aos cinco anos, virou a goleira da equipe, após convencer seu pai a deixar ela jogar. Apesar de ter havido um pouco de resistência dos pais e dos juízes, Manon continuou a jogar com os meninos.

Primeiros desafios

Após se inscrever no acampamento de hockey no verão da Liga Atom (uma liga menor), alguns adultos continuavam a questionar sua habilidade e quão adequado seria uma garota jogando hockey. Todavia, com o suporte que seus companheiros de equipe geralmente davam, Manon ajudou seu time a ganhar um campeonato em 1983.

Após se formar da Liga Atom, Manon fez um teste para o time Peewee AA, o nível mais alto de hockey infantil competitivo, mas foi cortada. Ela e o pai acreditavam que era devido ao fato dela ser uma menina. Mesmo assim, Manon não desistiu. Por isso, jogou um nível inferior de hockey em Peewee CC. Lá, ela foi um destaque.

Sua equipe ficou em primeiro lugar na região, o que finalmente permitiu a Manon Rhéaume realizar seu sonho de jogar no mundialmente famoso Torneio de Hockey Infantil de Quebec. Ao fazer isso, ela se tornou a primeira garota a participar nos 25 anos de história do torneio.

Em 1986 ela viria a jogar no Bantam AA, treinada por Pierre Brind’Amour, ex-jogador de Quebec Nordiques. Durante o primeiro ano, ela jogou regularmente. Contudo, ela foi jogando cada vez menos, por conta de forte pressão sofrida por pais que não gostavam de ver uma menina no hockey. Segundo eles, ela estaria “roubando” a vaga de outros meninos.

Por conta do sexismo e a dificuldade de poder jogar e avançar para ligar maiores, em fevereiro de 1989, na semana em que completou 17 anos, ela abandonou o esporte. Manon estava convencida de que sua carreira no hockey havia acabado.

O início da carreira no hockey feminino

Todavia, um ano depois de não ter praticado nenhum esporte, Rhéaume foi convidada para um acampamento de hockey especificamente para mulheres. Ela acabou se juntando a uma equipe em Sherbrooke, embora isso significasse viajar duas horas e meia para treinos e jogos.

No final da temporada 1990-91, a equipe venceu o campeonato provincial e terminou em segundo no campeonato nacional. Na época, discussões sobre o hockey feminino se tornar um esporte oficial nos Jogos Olímpicos de Inverno estavam à tona. Inspirada a seguir na carreira como goleira, ela queria representar o Canadá nas Olimpíadas.

Rhéaume defendendo a seleção canadense / Reprodução:Canadian Olympic Committee

Assim, ela foi nomeada para a equipe nacional feminina do Canadá para o campeonato mundial de 1992 na Finlândia. Ao mesmo tempo, sua equipe de Sherbrooke ganhou outro campeonato provincial, bem como uma medalha de bronze no campeonato nacional.

A primeira mulher a jogar na QMJHL

Em 1991, Manon Rhéaume começou a praticar com os Trois-Rivières Draveurs da Québec Major Junior Hockey League (QMJHL). Por conta de seu irmão mais novo, Pascal, ter assinado um contrato com os Draveurs naquele ano, o então técnico Gaston Drapeau ofereceu a ela a chance de treinar com o time também. Contudo, antes do início da temporada de 1991-92, Rhéaume foi jogar no time da Liga Tier-2 (Junior A) Louiseville Jaguars. Dessa forma, ela seria uma espécie de terceira goleira para o Trois-Rivières Draveurs.

Em novembro de 1991, os Draveurs precisavam de um goleiro de emergência. Nos primeiros dois jogos, Rhéaume sentou no banco. Sua chance de estrear na liga veio no dia 26 de novembro de 1991, quando ela substituiu Jocelyn Thibault.

Ela permitiu três gols em 17 minutos antes de sair do jogo com um corte no rosto causado por um puck. Embora tenha sido sua primeira e última aparição na QMJHL, ela rapidamente se tornou uma sensação na mídia como a primeira mulher a jogar no QMJHL.

Representando o Canadá

A estreia internacional de Rhéaume foi em 1992, no Campeonato Mundial Feminino de Hockey da Federação Internacional de Hockey no Gelo (IIHF). Alternando a titularidade com a goleira Marie-Claude Roy até as semifinais, quando ela jogou no gol a partida inteira.

Manon Rhéaume
Manon Rhéaume no campeonato da IIHF / Foto: Brian Winkler

No jogo da medalha de ouro, Rhéaume conseguiu um shutout, assim, ela ajudou o Canadá a vencer por 8-0 contra os Estados Unidos. Escolhida como melhor goleira do torneio, ela foi nomeada para o time All-Star de 1992 junto com as canadenses Angela James e Geraldine Heaney.

Os jogos na NHL

No final dos anos 80, a NHL anunciou uma expansão de franquias. Em 1992, Phil Esposito fundou com seu irmão, Tony, o Tampa Bay Lightning, na cidade de Tampa, na Flórida. Então, Manon Rhéaume foi convidada para o training camp da equipe depois que um olheiro Lightning a viu jogando na Liga de Hockey Junior de Quebec.

Rhéaume chamou a atenção de Esposito pois ela era muito pequena, e após isso, ele descobriu que ela era uma mulher. Então, ele pensou que isso seria uma forma interessante de deixar os moradores da Flórida animados com o hockey, já que o estado não era um mercado tradicional para o esporte.

Apesar disso ter sido um claro golpe publicitário, Esposito também estava interessado no talento de goleira que Rhéaume possuía. E ela não dispensaria a oportunidade de poder jogar uma partida na NHL.

Manon Rhéaume
Manon Rhéaume, a primeira mulher a jogar na NHL / Foto: B Bennett

Então, Manon jogaria o primeiro período de uma partida da pré-temporada contra o St. Louis Blues, em 1992. Ela deixou entrar dois gols em nove chutes, tornando-se a primeira mulher a jogar uma partida da National Hockey League. Ela também se tornou a primeira mulher a aparecer em qualquer uma das principais ligas esportivas profissionais da América do Norte. Após, ela jogaria outra partida da pré-temporada contra o Boston Bruins. Depois, ela assinou um contrato de três anos com o time afiliado da AHL, o Atlanta Knights.

Ao longo de cinco temporadas (1992-97), Rhéaume jogou 24 partidas no hockey profissional masculino da minor league, indo para o gelo como membro do Atlanta Knights (1992-3), Knoxville Cherokees (1993-94), Nashville Knights (1993- 94), Las Vegas Aces (1994–95), Tallahassee Tiger Sharks (1994–95), Las Vegas Thunder (1994–95) e Reno Renegades (1996–97).

Manon já disse algumas vezes que sempre teve confiança em seu talento para jogar em níveis profissionais de hockey. Contudo, o simples fato dela ser uma mulher a impediu de alcançar mais coisas em sua carreira.

Olimpíadas

Em 1994, Rhéaume foi novamente escolhida para jogar pela equipe canadense no Campeonato Mundial Feminino de Hockey da IIHF. O Canadá conquistou seu terceiro título mundial consecutivo, derrotando os Estados Unidos por 6–3 no jogo pela medalha de ouro em Lake Placid, Nova York.

Geraldine Heaney e Manon
Geraldine Heaney e Manon  / Foto: B Bennett

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 1998 foram os primeiros a incluir o hockey feminino. Rhéaume entrou naquela temporada como uma estrela, porém, isso não garantiria sua vaga no elenco do Canadá. Por isso, ela dividiu a rede com Lesley Reddon. O técnico do Canadá Shannon Miller escolheu Rhéaume para jogar a final, valendo a medalha de ouro, contra os Estados Unidos.

Manon fez algumas defesas brilhantes ​​no primeiro período, mas sofreu um gol durante o segundo período e outro no terceiro. Assim, o Canadá não marcou até o final do terceiro período, com apenas quatro minutos restantes para o fim. Infelizmente, ao deixar Manon no banco para aumentar a vantagem das atacantes no rinque, as americanas aproveitaram e marcaram mais um gol, levando o ouro em um placar final de 3-1.

Aposentadoria

Manon Rhéaume foi treinadora das goleiras na Universidade de Minnesota, em 1999-2000. No entanto, ela anunciou sua aposentadoria da seleção nacional em 2000. Em 2000-01, Rhéaume jogou como atacante com o Montréal Wingstar na National Women’s Hockey League (NWHL), e depois, se aposentou. Vale lembrar que a NWHL com sede no Canadá funcionou de 1999 a 2007; não deve ser confundida com a mais recente liga chamada NWHL com sede nos EUA que começou em 2015.

Todavia, Manon voltou a jogar em 2008, com o Minnesota Whitecaps da Western Women’s Hockey League. Ela também fez mais duas aparições no hockey profissional masculino naquela temporada. Em 10 de outubro de 2008, ela jogou o gol pelo Port Huron Icehawks da International Hockey League, durante um jogo de exibição contra o Flint Generals. Por fim, ela fez uma breve aparição no gol em um jogo contra o Muskegon.

Atualmente

Na abertura do jogo inaugural da NWHL, no dia 11 de outubro de 2015, Manon Rhéaume foi quem soltou o puck na cerimônia. A NWHL é a primeira primeira liga feminina a pagar suas jogadoras.

Em 2000, Rhéaume ingressou na Mission Hockey em Irvine, Califórnia, como diretora de marketing global de hockey feminino. Em seus três anos na empresa, ela ajudou a desenvolver os primeiros produtos de hockey específicos para mulheres.

Manon no IIHF 2017
Manon no IIHF 2017 / Foto: Gregory Shamus

De 2003 a 2005, Rhéaume foi diretora de marketing e hockey feminino da Powerade Iceport, uma academia de esportes no gelo em Wisconsin.

Por fim, a partir daí, ela passou um ano como diretora de vendas e marketing na Central Collegiate Hockey Association em Michigan. Em 2008, ela criou a Fundação Manon Rhéaume, que oferece bolsas de estudo para meninas menores de 19 anos para ajudá-las a alcançar seus sonhos atléticos.

Bibliografia: Encyclopedia & The Canadian Encyclopedia

Foto: B. Bennett

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