Nesta segunda-feira (19), Luke Prokop deu um passo que, infelizmente, muitos ainda temem, principalmente dentro da NHL. Pelas redes sociais, Luke abriu seu coração para todos que estivessem dispostos a ouvir sua história de superação e coragem, levantando a bandeira de uma causa ainda muito estigmatizada dentro da liga. Ele se torna o primeiro jogador com um contrato na NHL a se assumir na história da liga.

Em seu comunicado, escreveu:

Desde muito novo, sonho em jogar na NHL, e acredito que viver minha verdadeira vida vai me permitir dar 100% de mim no rinque e aumentar minhas chances de realizar meus sonhos”

Colocando o medo e as incertezas de lado, ele se torna uma grande inspiração para jogadores jovens e até mesmo para os torcedores que, pegando sua deixa, compartilharam suas histórias de amor, criando uma corrente do bem que deixou a todos com lágrimas nos olhos. 

A resposta de Nashville

Os novos colegas de time de Luke Prokop mandaram mensagens de apoio para o jovem, evidenciando que eles estavam ali para ajudá-lo com o que fosse necessário. 

Mesmo da Suíça, o capitão do time, Roman Josi, contactou Luke para lhe parabenizar. 

“Estamos obviamente muito orgulhosos dele por ter dado esse passo,” disse pelo telefone. ”Nossa mensagem como time é que, obviamente, vamos apoiá-lo. Nós acabamos de falar com ele e avisamos que iremos ajudar com tudo que ele precisar e que estamos orgulhosos”. 

 Sobre a entrada de Luke no time de Nashville e suas boas vindas, Josi disse: 

‘’Acho que a liga toda será acolhedora…Como sempre falamos, hóquei é para todos, e acho que a organização do time realmente vive isso. Todos nós estaremos lá para ele. (…) Não estou tentando falar por Luke, mas ele só quer ser um de nós, como qualquer outro jogador. É claramente uma grande novidade, mas ele irá para o training camp conosco e se tornará parte de nós, um de nossos jogadores, como os outros”.

A resposta da NHL

Apesar da notável fama de “liga conservadora e careta” que a NHL carrega, para a alegria de todos sua reação foi totalmente positiva, plantando a sementinha de esperança em todos os fiéis torcedores que lutam por um ambiente mais inclusivo e livre, para que todos possam expressar quem realmente são. 

O comissário da liga, Gary Bettman, imediatamente ligou para Luke, o tranquilizando e mostrando seu apoio. 

“As pessoas, quando não podem ser quem realmente são, não conseguem ser suas melhores versões”, disse Bettman. “Queremos que todos saibam que, não importa quem você seja, tem um lugar em nossa família”. 

Felizmente, Bettman assegurou que seu objetivo agora é mostrar para Prokop que ele não está sozinho, e que a liga irá dar todo o apoio necessário nessa nova jornada em sua vida. 

“Eu disse para ele que sua atitude foi muito corajosa, e que é importante ter todo o suporte da família NHL”, continuou Bettman. “E se ele tiver qualquer problema, tem meu número de celular e pode me ligar quando precisar”.  

Uma porta para o futuro

A força de Luke Prokop não apenas o trará liberdade dentro e fora do rinque, mas também servirá de exemplo para o futuro da liga como um todo, mostrando que, sim, é possível termos orgulho de falar que a NHL caminha para um amanhã sem tantos muros e preconceitos. 

“Acho que minha resposta para o comunicado de Luke é gratidão”, Patrick Burke, diretor sênior do player safety disse. “Sou grato a ele por ter sido o primeiro a dar esse grande passo e ter convidado toda a comunidade de hóquei para sua vida pessoal. Eu sou grato, de verdade”.

“Minha resposta pessoal é celebrar. Estou feliz. Ele será um jogador que começará sua carreira totalmente aberto, sem esconder nada. Sem temer quem sabe ou não. E isso, para mim, merece ser celebrado”. 

Ninguém solta a mão de ninguém

Algumas horas depois, a NHL anunciou em suas redes sociais que doará US$100.000 para organizações voltadas à proteção e disseminação de respeito à comunidade LGBTQI+, todas selecionadas com a ajuda de Luke. 

Entre elas, a organização You Can Play, fundada com a ajuda de Patrick Burke em 2012. Para Patrick, esse momento tem uma importância ímpar. Lutando pelos direitos da comunidade LGBTQI+ há 9 anos, ele passou a se dedicar à causa após a morte de seu amado irmão, Brendan, que faleceu em um acidente de carro em 2010, aos 21 anos, um ano após ter se assumido gay. 

Ele espera, assim como todos nós, que a história de Luke Prokop possa facilitar o caminho de todos aqueles dentro e fora da NHL que sentem medo de expressarem quem realmente são, e diz como seu irmão, Brendan, estaria radiante neste momento. 

“Pessoas como Bayne Pettinger [agente que se assumiu em novembro] desenhou, publicamente, uma linha de conexão brilhante em resposta a Brock McGillis, que publicamente desenhou também uma conexão com meu irmão, que teve seus próprios heróis como exemplo”, Burke disse. “Agora teremos atletas na comunidade do hóquei de todas as idades que, olhando para Luke, poderão pensar ‘funcionou para ele, acho que estou pronto para fazer o mesmo”.

A coragem de ser um herói e o preço de se fazer história

Para Nora Cothren, jogadora de hóquei que também se assumiu na juventude, foi como se um peso tivesse sido tirado de suas costas no momento em que se assumiu gay para suas colegas de time. Não ter que esconder sua verdadeira identidade a fez se tornar não apenas uma profissional melhor, mas também uma pessoa melhor. 

“Ter que trabalhar para esconder sua identidade, mentir e ter que constantemente estar a par de rumores é exaustivo”, Cothren disse. “Eu já antecipo o aumento de suas habilidades [de Luke] para um nível ainda mais alto do que agora, porque ele não precisa se esconder mais. Agora ele pode continuar sua jornada sendo quem ele realmente é, podendo jogar o melhor hóquei de sua vida”.

É preciso, principalmente dentro da NHL, ter a coragem de um herói para fazer o que Luke fez, e podermos presenciar a história ser marcada por esse gesto de amor é, no mínimo, eletrizante. Ver sua força, sua gentileza e altruísmo quebrar barreiras impostas silenciosamente por séculos nos deixa de lição muito mais do que podemos imaginar. No futuro, quando pensarmos em Luke Prokop, não iremos ver apenas um jogador de hóquei, mas também alguém que lutou contra um monstro pior do que muitos de nós já pensou em enfrentar, vencendo não apenas por ele, mas por todos aqueles que ainda precisam se esconder, seja por falta de apoio, medo ou incerteza.

Sabemos que em algum momento obstáculos virão. Muros serão erguidos com o ódio daqueles responsáveis pela disseminação do medo. Este seria, em tese, o preço a se pagar por se libertar de amarras tão injustas, mas sabemos que ainda há muito a ser feito. Nosso papel como torcedores e apoiadores, é compartilhar força, amor e apoio para que logo que erguidos, tais muros sejam derrubados. 

Que nós, da comunidade de hóquei no Brasil, sejamos parte ativa dessa mudança, levando esse acontecimento histórico para nossas vidas, e ajudando na luta por um mundo onde ninguém precise se assumir, mas sim apenas amar, livre e intensamente, assim como deveria ser. 

De todos nós, da NHL Brasil: Muito obrigada, Luke.